sexta-feira, 24 de abril de 2009

Pra refletir...By Lya Luft

Lya Luft*
"Todos os indivíduos,

não importa a conta bancária,

profissão ou cor dos olhos,

podem reverter esta outra crise:

a do desrespeito geral

que provoca violência física

ou grosseria verbal em casa,

no trabalho,

no trânsito"


O tema do momento é a crise financeira global. Eu aqui falo de outra, que atinge a todos nós, mas especialmente jovens e crianças: a violência contra professores e a grosseria no convívio em casa. Duas pontas da nossa sociedade se unem para produzir isso: falta de autoridade amorosa dos pais (e professores) e péssimo exemplo de autoridades e figuras públicas.


Pais não sabem como resolver a má-criação dos pequenos e a insolência dos maiores. Crianças xingam os adultos, chutam a babá, a psicóloga, a pediatra. Adolescentes chegam de tromba junto do carro em que os aguardam pai ou mãe: entram sem olhar aquele que nem vira o rosto para eles. Cumprimento, sorriso, beijo? Nem pensar. Como será esse convívio na intimidade? Como funciona a comunicação entre pais e filhos? Nunca será idílica, isso é normal: crescer é também contestar. Mas poderíamos mudar as regras desse jogo: junto com afeto, deveriam vir regras, punições e recompensas. Que tal um pouco de carinho e respeito, de parte a parte? Para serem respeitados, pai e mãe devem impor alguma autoridade, fundamento da segurança dos filhos neste mundo difícil, marcando seus futuros relacionamentos pessoais e profissionais. Mal-amados, mal-ensinados, jovens abrem caminho às cotoveladas e aos pontapés.


Mal pagos e pouco valorizados, professores se encolhem, permitindo abusos inimagináveis alguns anos atrás. Uma adolescente empurra a professora, que bate a cabeça na parede e sofre uma concussão. Um menininho chama a professora de "vadia", em aula. Professores levam xingações de pais e alunos, além de agressões físicas, cuspidas, facadas, empurrões. Cresce o número de mestres que desistem da profissão: pudera. Em escolas e universidades, estudantes falam alto, usam o celular, entram e saem da sala enquanto alguém trabalha para o bem desses que o tratam como um funcionário subalterno. Onde aprenderam isso, se não, em primeira instância, em casa? O que aconteceu conosco? Que trogloditas somos – e produzimos –, que maltrapilhos emocionais estamos nos tornando, como preparamos a nova geração para a vida real, que não é benevolente nem dobra sua espinha aos nossos gritos? Obviamente não é assim por toda parte, nem os pais e mestres são responsáveis por tudo isso, mas é urgente parar para pensar.


Na outra ponta, temos o espetáculo deprimente dos escândalos públicos e da impunidade reinante. Um Senado que não tem lugar para seus milhares de funcionários usarem computador ao mesmo tempo, e nem sabia quantos diretores tinha: 180 ou trinta? Autoridades que incitam ao preconceito racial e ao ódio de classes? Governos bons são caluniados, os piores são prestigiados. Não cedemos ao adversário nem o bem que ele faz: que importa o bem, se queremos o poder? Guerra civil nas ruas, escolas e hospitais precários, instituições moralmente falidas, famílias desorientadas, moradias sub-humanas, prisões onde não criaríamos porcos. Que profunda e triste impressão, sobretudo nos mais simples e desinformados e naqueles que ainda estão em formação. Jovens e adultos reagem a isso com agressividade ou alienação em todos os níveis de relacionamento. O tema "violência em casa e na escola" começa a ser tratado em congressos, seminários, entre psicólogos e educadores. Não vi ainda ações eficazes.


Sem moralismo (diferente de moralidade) nem discursos pomposos ou populistas, pode-se mudar uma situação que se alastra – ou vamos adoecer disso que nos enoja. Quase todos os países foram responsáveis pela gravíssima crise financeira mundial. Todos os indivíduos, não importa a conta bancária, profissão ou cor dos olhos, podem reverter esta outra crise: a do desrespeito geral que provoca violência física ou grosseria verbal em casa, no trabalho, no trânsito. Cada um de nós pode escolher entre ignorar e transformar. Melhor promover a sério e urgentemente uma nova moralidade, ou fingimos nada ver, e nos abancamos em definitivo na pocilga.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Fragmentos de Drummond...pensando-se a dependência química..

CHEGOU UM TEMPO QUE NÃO SE DIZ MAIS MEU DEUS,

TEMPO DE ABSOLUTA DEPURAÇÃO.

TEMPO EM QUE NÃO SE DIZ MAIS MEU AMOR,

PORQUE O AMOR RESULTOU INUTIL

E OS OLHOS NÃO MAIS CHORAM

E AS MÃOS TECEM APENAS O RUDE TRABALHO.

ALGUNS ACHANDO BARBARO O ESPETÁCULO,

PREFERIRIAM OS DELICADOS MORRER.

CHEGOU UM TEMPO EM QUE NÃO ADIANTA MORRER,

CHEGOU UM TEMPO EM QUE A VIDA É UMA ORDEM.

A VIDA APENAS SEM MISTIFICAÇÃO.

FRAGMENTOS DO POEMA "OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO "

DO LIVRO " SENTIMENTO DO MUNDO "

AUTOR BRASILEIRO - CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

E você como está hoje? In ou Out?

Ivan Lessa

Colunista da BBC Brasil

Economia: 'in' e 'out'

Tenho a impressão de que tudo começou com uma brincadeirinha sofisticada de salão lançada pela revista americana Esquire. In e out. Anos 50, possivelmente 40.

O tipo de roupa que estava por dentro (vamos adaptar logo a coisa), a atriz que estava por fora. O carro, a cidade balneária, o vinho, o restaurante, filmes, atores e atrizes e por aí afora. Pegou. Pegou furiosamente. Virou a coisa mais in do mundo. Até suas inevitáveis variações. Algo estava tão out, mas tão out que passava a ser in.


Claro que nós fomos nessa. O "quente" e o "frio" (ou "gelado" e ainda "devagar quase parando") têm suas origens na matéria daquela que foi uma das mais sofisticadas publicações do mundo.

Corte rápido para o ano de 2009. In e out continuam firmes passando julgamento. Coroando isso, condenando aquilo. Vivemos tempos duros e complicados. É recessão pra cá, deflação pra lá, inflação acolá. Mais complicado que qualquer bolero. Quem não me deixa mentir é o Centro Nacional de Estatísticas do Reino Unido. Brincando, brincando, sua 62ª resenha anual mostra a quantas andam os cidadãos britânicos. Em matéria de gosto. Os jornais aproveitaram e pegaram a deixa da Esquire. Página inteira para o que está in e para o que está out. Por dentro e por fora, insisto, num acordo ou reforma pessoal.


Vivo aqui, interesso-me pelo que andam fazendo por aí. Quero estar por dentro e não por fora. Portanto, preparo-me para a recessão com um bom copo de vinho, boa comida e, talvez, uma boa noite diante da televisão vendo DVD alugado online. Estarei por dentro, in para valer. Essa noitada é a atual tendência, segundo aqueles que estudam os modos e costumes dos nativos que me cercam e que procuro seguir. Friso: por questões econômicas. Dinheiro, seu excesso ou falta, está muito na moda.


As pessoas estão comprando ameixas, ovos free-range e iogurtes. O povo é soberano e decidiu: recessão alguma vai lhe roubar os pequenos prazeres da vida nestas ilhas. Por esse motivo, o queijo parmesão e o vinho rosé passaram a fazer parte da lista do Centro de Estatísticas. Quem achava tremenda cafonice ir de vinho rosé quebrou a cara. É quente, quentérrimo. Servido, claro, beirando o geladinho. Vale lembrar o fato de que o rosé é o vinho de mais baixo teor alcoólico de todos os vinhos. Não cair de porre, não sair por aí de porre também já era. Out, out, out.


Beiram o "estar por fora" também os restaurantes. Embora com a dinheirama que (ninguém sabe o como e o porquê) anda rolando por aí não há motivo para se ficar com pena das casas de pasto (vamos dar nome aos vitelos) com suas miríades de estrelas. Acontece, porém, que as pessoas estão comprando seus almoços e jantares nos supermercados. Tudo micro-ondável. Principalmente, peixe e carne de boi. Não, as marmitas e os marmiteiros ainda não fizeram uma espetacular reentré.

Eletrônica? Tudo bem, sim senhor. O sinal analógico estará mais do que out, morto mesmo, a partir de 2011. Portanto, na moda estão os DVDs Blu-ray de alta definição, já que seu preço, coisa estranha, andou caindo bastante. Junto com eles, essa mania que pegou de se alugar pelo correio os simpáticos disquinhos que uma companhia especializada manda em envelopes já selados para você devolver. Dois ou três por semana. Uma pechincha.


Por fora, finalmente, muito por fora, as câmeras de 35mm, os vídeo-gravadores, os aparelhos de TV tradicionais, o CD player também tradicional, a galinha congelada, sobretudos (!?) e móveis de jardim feitos de matéria plástica. Tudo isso, já era. Já era mesmo.

Pena fiquei foi com alguns profissionais que eram de minha simpatia: os relojoeiros. Não estão devagar quase parando. Pararam mesmo. Feito os relógios no qual davam um jeito. Só que pararam de vez.